12 outubro 2020

LUZ E SOMBRA

 

Ciúme do sol beijando teu rosto.
Ciúme do vento bajulando teus cabelos.
Quase tive um ataque colérico,
Fúria contra a natureza.
Olhar pra você com tanta luz e cor chegava a ser absurdo,
Pintura impressionista de Monet.

Quero te desconstruir,
Tal Picasso.
Pra te montar de novo
No quarto,
Na penumbra.
Tateando no escuro,
Colocando cada parte sua num lugar seguro.
Onde só eu possa alcançar.

Que tal pedir ajuda a Rodin
Pra também perpetuar nosso obsceno beijo,
Num mármore raro vermelho.

Ou então pra Kandinsky
Esconder nossos impublicáveis segredos
Em abstratas linhas e cores resistentes.

Botero talvez me represente
Como realmente sou
Pra abrir teus olhos,
Tirar você desse torpor.

Mas prefiro continuar
Numa tela de Dali
Absurdamente surreal
Escorrendo as horas aqui e ali
Pra continuar a te reconstruir.

E como Frida,
Construir contigo um universo novo
De amor à terra, à cultura, às gentes
De dores sólidas
E amores espelhados.

Viver contigo eternamente num desenho na parede.
 
Eliane Rudey

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